quinta-feira, 30 de maio de 2019

Discurso de Saint Just , na convenção

Saint Just :

“Há nesta assembleia, ao que parece, alguns ouvidos sensíveis que não suportam bem a palavra “sangue”.
Algumas considerações sobre a natureza e a história talvez possa convencê-los de que não somos mais cruéis do que a natureza e o tempo. A natureza segue suas leis, tranquila e irresistivelmente; onde quer que entre em conflito com eles, o homem é esmagado. Uma simples mudança na composição do ar, um súbito avivar-se do fogo telúrico, uma oscilação do equilíbrio de uma massa de água, uma epidemia, uma erupção vulcânica, umas inundações são suficientes para sepultar milhares de seres humanos.

 E qual o resultado? Apenas uma modificação insignificante da natureza física, mal perceptível no aspecto geral desta e que passaria despercebida, se não ficassem cadáveres no seu caminho. 

Pergunto, agora deverá a natureza moral, sem suas revoluções, ter mais considerações do que a física? 

Não assistirá a uma ideia, do mesmo modo que uma lei física, o direito de destruir tudo o que se lhe oponha?

 E um acontecimento que modifica a inteira natureza de uma estrutura moral, isto é, da humanidade, não teria o direito de passar através do “sangue”? 

O espírito do Universo serve-se na esfera espiritual, do nosso braço, tal como, na esfera física, dos vulcões e das inundações. Que importa que se morra por obra de uma epidemia ou da Revolução?

 Os passos da humanidade são lentos e se contam por séculos; atrás de cada um deles, erguem-se os túmulos de gerações inteiras. A conquista dos menores inventos e dos mais simples princípios custou a vida de milhões de homens, que pereceram no caminho. Num tempo que a marcha da história é mais rápida, não será natural que a um número maior de homens venha faltar respiração. 

A conclusão é simples e breve: já que todos fomos criados em condições iguais, somos todos iguais , descontadas as diferenças que a própria natureza estabeleceu, logo, todos podem ter prerrogativas, ninguém pode ter privilégios, que se trate de indivíduos, quer se trate de classes mais ou menos numerosas de indivíduos.

Cada termo desta proposição, ao traduzir-se em realidade, já matou seus homens.
O 14 de julho, o 10 de agosto, o 31 de maio são seus sinais de pontuação. Foram-lhe necessários quatro anos para se tornar realidade no mundo corporal; em circunstâncias normais, teria precisado de um século e estar pontuada por gerações. Será, pois de admirar, que cada novo parágrafo, a cada nova curva, o caudal da revolução despeje seus cadáveres? 

A essa proposição, precisamos acrescentar algumas conclusões; umas poucas centenas de cadáveres deverão impedir-nos de fazê-lo?

Moisés guiou seu povo, através do Mar Vermelho, para o deserto, onde aguardou , antes de fundar o novo Estado, que a velha e corrupta geração se consumisse. Legisladores! Nós não temos o mar vermelho, nem o deserto, mas temos a guerra e a guilhotina.

A Revolução é como as filhas de Pélias: desmembra a humanidade para rejuvenesce-las. Desta caldeira de sangue, a humanidade submergirá, como a Terra das águas do dilúvio, com forças novas e primigênias, como se fora criada pela primeira vez.

Convidamos todos os inimigos secretos da tirania, que, na Europa e no mundo inteiro, trazem suas vestes o punhal de bruto a partilharem conosco deste momento sublime”


Fonte: Livro => A morte de Danton por Georg Buchner


segunda-feira, 20 de maio de 2019

Temporalidade e Tempo



DIMENSÃO DA HISTORICIDADE NO SER HUMANO


Essência da História Individual de cada Ser Humano


- Cada um tem sua história e faz sua própria história.

- Cada um terá seu fim. O homem é um "ser-para-a-morte".

- Cada um quer justificar sua vida, dar-lhe sentido.

- A maioria quer assumir o sentido de sua vida.

- Cada história individual faz parte da história coletiva.

- Tomar consciência de si próprio depende da consciência da história universal.


1) TEMPORALIDADE E TEMPO


- Cada indivíduo deve percorrer, num processo irreversível, as fases de sua vida.

- O modo de ser homem é a sucessão de momentos aonde suas chances e dificuldades apresentam-se diferentes em cada uma das fases de sua vida.


O que é Temporalidade?


- Sucessão das várias fases da vida.

- A temporalidade NÃO se confunde como Tempo.

- A temporalidade é uma característica do Indivíduo consciente de sua mortalidade.

- É a temporalidade que determina para o indivíduo que:

  Cada uma de suas ações e decisões não podem ser retrocedidas.


O que é Tempo?


- É a medida do movimento segundo o "antes" e o "depois". (Aristóteles - 384 - 322 a.C.)

- O tempo é um conceito subjetivo criado pela sociedade humana, para explicar a base das transformações da sociedade. (Kant - 1724 - 1804)


Tempo é um conceito.


Tipos conceituais de Tempo:


1) Tempo Físico:

- É a sucessão de instantes (segundos, minutos, horas, dias etc).

- É retilíneo, contínuo e regular.

- Nele, só presente é real.

- Representado na mitologia grega por "Cronos", que devora seus próprios filhos.

Obs.:Não é o tempo da Física Quântica.


2) Tempo Circular:

- Nietzsche: "O eterno retorno".

- A realidade humana não tem começo nem fim. Tudo volta a se repetir de tempos em tempos. (Este conceito não tem adeptos na filosofia nem na ciência)


3) Tempo Sagrado:

- O tempo é linear, tem começo na criação do planeta terra por Deus e terá seu final na consumação dos tempos (Juízo Final).

- O tempo sagrado é repetível e recuperável, como por exemplo: arrependimento.


4) Tempo Vivencial:

- É o tempo subjetivo, é o tempo de cada um, de acordo com suas emoções e sentimentos.

- Não se relaciona em nada com a marcha objetiva do tempo.


5) Tempo Antropológico:

- É tridimensional: "Agora", "Antes" e "Depois".

- É o tempo físico enquanto está na consciência.

- Envolve a consciência do ser humano de seu corpo e seu espírito.


Santo Agostinho:

O presente é a passagem do "ainda não" para o "não mais".

O passado é diferente do presente e do futuro, mas não existe sem eles.

A consciência / alma / espírito tem uma duração que transcende o presente.


- O tempo antropológico é a conexão do presente com o passado e o futuro.

- O tempo antropológico é a ESTRUTURA FUNDAMENTAL da existência humana.


2) HISTORICIDADE


- A historicidade é o tempo antropológico (Tridimensional) com o conteúdo das histórias individuais e da coletividade (Sociedades).

- A historicidade tem como objetivo a auto-realização do ser humano.

- A auto-realização pressupõe a liberdade, só que ela é finita.

- O ser humano está "esticado" entre o passado e o futuro.

- Seu PRESENTE É, FOI e SERÁ.

- Na historicidade, o passado não pode ser mudado, embora continue agindo sobre o presente, seja como capacidades adquiridas seja como recalques, falhas, culpas etc.

- O passado só poderá ser modificado no seu sentido para minha consciência através de duas possibilidades: psicoterapia ou decisão própria de assumir responsabilidade (aprender com os erros).

- O futuro é aberto, porque depende da liberdade de escolha.


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O HOMEM É UM SER TEMPORAL E HISTÓRICO EM TODAS AS SUAS AÇÕES

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1) Percepção dos sentidos humanos:

- A percepção é mediada pelo tempo. Quando tomamos consciência da percepção de uma determinada realidade, esta realidade já se modificou.

- Nossa percepção é também tridimensional, nossa mente constrói o passado e futuro da percepção presente.

- De percepções parciais criamos mentalmente a percepção total de uma realidade.


2) As decisões humanas:

- Decidir é resolver problemas do "antes" (passado) no "agora" (presente) para que este problema não atrapalhe o "depois" (futuro).


3) Hábitos humanos:

- Hábito é uma facilidade nas ações do presente, que adquirimos no passado.

- Qualquer ação humana pode tornar-se hábito, ser padronizada.

- A antropologia considera os hábitos um tipo de progresso humano, porque ele (os hábitos) dispensa o cérebro do esforço de decidir.


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A HISTORICIDADE HUMANA É UMA TENSÃO PARA CADA INDIVÍDUO, QUE O ATORMENTA PERMANENTEMENTE.

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A constituição da vida humana resume-se no mundo (real) associado ao tempo. A vida humana está em algum lugar entre o pré-dado (antes), mas que continua agindo encurtando o tempo presente (agora) e entre a pre-ocupação com um futuro aberto (depois).

A historicidade é uma tensão entre liberdade e determinação. Nem tudo que se pode fazer na vida, pode ser feito agora. Mas é preciso agilidade de pensamento e visão de conjunto para compreender as situações individuais e as situações sociais que precisam da ação no agora e as que podem retornar mesmo diferentes de alguma forma.


3) A CONSCIÊNCIA HISTÓRICA


- A história como realidade é o ser dos fatos, o movimento real da humanidade através dos tempos.

- A história como ciência é o conhecimento metódico e crítico das interpretações que os fatos "ganharam" e a relação entre eles.

- A história é a realidade compreendida como sequência de transformações das condições da vida humana e como estas transformações são interpretadas e reinterpretadas através dos tempos.


Postura da consciência humana em relação à história:


a) Consciência historiadora:

- Análise cientificamente "objetiva" do passado, "sem" julgamentos de valores éticos, raciais, religiosos, econômicos etc.

- O passado é PASSADO.

- O passado é, apenas, um objeto de estudo.


b) Consciência histórica:

- Análise do passado a partir de quem faz esta análise.

- Quem analisa o passado sabe-se parte dele, atingido por ele e, envolvido com os homens que viverem naquele passado.

- Quem analisa sente que é participante do passado histórico da humanidade.

- Tem um sentido global das várias concepções de homem em várias épocas diferentes do passado.

- Tem um sentido espiritual (de consciência individual) que orienta a vida de cada pessoa em seu presente.




BIBLIOGRAFIA


RABUSKE, Edvino A. Antropologia filosófica: um estudo sistemático. 10.ed Petrópolis: Vozes, 1986. p.158-172.

Fonte: 
http://cleitonrezende1.blogspot.com/2010/07/mini-curso_26.html

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Tirania: recusar servir é recusar oprimir

"Um jovem de 17 anos, chamado La Boétie, se ergueu contra a titânia existente na França, governada por um rei despótico.

Esse jovem perguntava: como explicar que milhares de pessoas possam aceitar que um só mande em todos?

-E respondia: porque cada um serve ao tirano esperando ser servido pelos demais, cada um é um pequeno tirano que serve os de cima para ser servido pelos de baixo. Por isso, dizia esse jovem, o tirano tem mil olhos e mil ouvidos para nos espionar, mil mãos para nos esganar, mil pés para nos esmagar porque somos nós, tiranetes, que lhe damos nossas vidas para que ele tenha poder para nos oprimir.

Como derrubar um tirano? 

Respondeu La Boétie: não lhe dando o que quer de nós, não lhe dando nossos olhos e ouvidos, nossas mãos e nossos pés, nossos filhos, nossa honra, nosso corpo e nossa alma, nossa vida. Somente o desejo de liberdade, igualdade e justiça pode derrubar a tirania. Recusar servir é recusar oprimir.

Quem está nos palácios ao lado do tirano e o rodeia com servilismo? 

Os bandidos. Quando bandidos se juntam, há conspiração e não companhia, e, temendo uns aos outros, não são amigos e sim comparsas e cúmplices. 

O que se opõe à bandidagem? 

Dizia o jovem La Boétie: a amizade. A amizade é coisa santa porque nasce do que há de melhor em nós, pois nela nos reconhecemos livres e iguais no bem querer e no bem fazer, partilhando e compartilhando nossas vidas, desejando aos outros o que desejamos para nós mesmos na ajuda mútua e desinteressada.

Trecho da entrevista da:
Professora ( Filósofa) Marilena Chauí.

Citando:
Etienne de La Boétie, que  foi um filósofo francês que escreveu: Servidão Voluntária

Coruja de Minerva

É o historiador responsável pelos juízos falsos da História?


— Considerando-se que cada Espírito encarnado tem sua tarefa especial nesse ou naquele setor evolutivo, as historiadores que se deixam mergulhar no interesse econômico das sinecuras políticas, embriagados pelo vinho da mediocridade, responderão além-túmulo pela exploração comercial da inteligência que hajam praticado na Terra, adulterando a justiça e o direito, evitando a verdade, ou fornecendo mentiras ao espírito confiante dos pósteros.

Do Livro O Consolador / Francisco Cândido Xavier/Questão 83