Saint Just :
“Há nesta assembleia, ao que parece, alguns ouvidos sensíveis que não suportam bem a palavra “sangue”.
Algumas considerações sobre a natureza e a história talvez possa convencê-los de que não somos mais cruéis do que a natureza e o tempo. A natureza segue suas leis, tranquila e irresistivelmente; onde quer que entre em conflito com eles, o homem é esmagado. Uma simples mudança na composição do ar, um súbito avivar-se do fogo telúrico, uma oscilação do equilíbrio de uma massa de água, uma epidemia, uma erupção vulcânica, umas inundações são suficientes para sepultar milhares de seres humanos.
E qual o resultado? Apenas uma modificação insignificante da natureza física, mal perceptível no aspecto geral desta e que passaria despercebida, se não ficassem cadáveres no seu caminho.
Pergunto, agora deverá a natureza moral, sem suas revoluções, ter mais considerações do que a física?
Não assistirá a uma ideia, do mesmo modo que uma lei física, o direito de destruir tudo o que se lhe oponha?
E um acontecimento que modifica a inteira natureza de uma estrutura moral, isto é, da humanidade, não teria o direito de passar através do “sangue”?
O espírito do Universo serve-se na esfera espiritual, do nosso braço, tal como, na esfera física, dos vulcões e das inundações. Que importa que se morra por obra de uma epidemia ou da Revolução?
Os passos da humanidade são lentos e se contam por séculos; atrás de cada um deles, erguem-se os túmulos de gerações inteiras. A conquista dos menores inventos e dos mais simples princípios custou a vida de milhões de homens, que pereceram no caminho. Num tempo que a marcha da história é mais rápida, não será natural que a um número maior de homens venha faltar respiração.
A conclusão é simples e breve: já que todos fomos criados em condições iguais, somos todos iguais , descontadas as diferenças que a própria natureza estabeleceu, logo, todos podem ter prerrogativas, ninguém pode ter privilégios, que se trate de indivíduos, quer se trate de classes mais ou menos numerosas de indivíduos.
Cada termo desta proposição, ao traduzir-se em realidade, já matou seus homens.
O 14 de julho, o 10 de agosto, o 31 de maio são seus sinais de pontuação. Foram-lhe necessários quatro anos para se tornar realidade no mundo corporal; em circunstâncias normais, teria precisado de um século e estar pontuada por gerações. Será, pois de admirar, que cada novo parágrafo, a cada nova curva, o caudal da revolução despeje seus cadáveres?
A essa proposição, precisamos acrescentar algumas conclusões; umas poucas centenas de cadáveres deverão impedir-nos de fazê-lo?
Moisés guiou seu povo, através do Mar Vermelho, para o deserto, onde aguardou , antes de fundar o novo Estado, que a velha e corrupta geração se consumisse. Legisladores! Nós não temos o mar vermelho, nem o deserto, mas temos a guerra e a guilhotina.
A Revolução é como as filhas de Pélias: desmembra a humanidade para rejuvenesce-las. Desta caldeira de sangue, a humanidade submergirá, como a Terra das águas do dilúvio, com forças novas e primigênias, como se fora criada pela primeira vez.
Convidamos todos os inimigos secretos da tirania, que, na Europa e no mundo inteiro, trazem suas vestes o punhal de bruto a partilharem conosco deste momento sublime”
Fonte: Livro => A morte de Danton por Georg Buchner